Edifício dos Paços do Concelho

paco1"(…) As repartições publicas estão dispersas por varios edificios, com visível encomuodo para os que tem de as frequentar; e algumas sobrecarregam o cofre do município, com o pagamento das respectivas rendas, estando quase todas instaladas. Couvem, [nos] de todos a sua concentração n’ um so edificio, que se torna necessário construir, reunnnindo as condicções necessárias para tal fim" (…)

Acta da Sessão de Camara de Sintra de 25 de Novembro de 25 de Novembro de 1903, Lv. Nº 19, Fólios 104-105

Os modernos Paços do Concelho foram edificados entre a “vila velha” e a Estefânia, local onde até então se erguia a antiga ermida de São Sebastião de possível origem Manuelina, mas que apresentava já sinais de ruína, foi por deliberação camarária mandada derrubar para dar lugar à nova construção.

Em estilo neo-manuelino, com toda a sua efusão escultural, com todo o avassalante simbolismo dos seus motivos ornamentais resultantes da estilização da flora portuguesa, dos utensílios de navegação, da esfera armilar e da Cruz de Cristo, “caracteriza a arte nacional”, porque se encontra na posse de um cadinho capaz de permitir a fusão de todas essas influências transformando-as num corpo homogéneo.

Mas ao mesmo tempo o neo-manuelino funcionava como “excentricidade de aparato” e uma confortável opulência porque se reduzia à estranheza da recuperação de um passado reconhecível, fora do tempo e fora da escala, como um repositório de uma ideia de nação e progresso, passando a ter um carácter fundamentalmente moral, ao mesmo tempo funcionou como espólio do passado transformado em património que se apoia na consciência nacional do Estado.   

Os Paços do Concelho são, a reinvenção cenográfica da arquitetura e exercem um feitiço estranho e caprichoso a quem por ele passa ou deambula. Adães Bermudes conseguiu um edifício que acerta com os desníveis do terreno, tirando partido do enquadramento natural, da ambiência e custosa arte de edificar de forma ajustada à paisagem circundante. Dentro da exiguidade verbal da construção risca um edifício digno acabando por combinar o neo-manuelino da fachada com o neo-romantismo do claustro, transparecendo logo no pórtico da entrada a simplicidade que joga com a sobriedade e elegância.

Uma altaneira torre de remates piramidais encimada por esfera armilar — simbolizando justiça, e autoridade de interpretar e aplicar a lei e, ainda soberanamente governar e legislar a administração local/municipal atestando os direitos e liberdades concelhias — o edifício continua numa profusão de janelões moldurados, corpo principal destacado na fachada com as suas loggias — neo-românica a inferior, de profusa decoração de acordoados manuelinos a do andar nobre, e um claustrim também de ressaibos neo-românicos adaptado no pátio central, os Paços do Concelho exaltam num equilíbrio imaginoso.

Assim, o edifício de planta quase quadrangular, com a sua altaneira torre rematada de forma piramidal a querer topetar as nuvens, qual campanário medieval atestando os direitos e liberdades concelhias, ostenta na fachada uma loggia de dois pisos que dá acesso ao interior. Na escadaria principal o vigoroso leão observa quem sobe e desce.

Conforme descreve Regina Anacleto, em Arquitectura Neomedieval Portuguesa, “ (…) no piso térreo confrontamo-nos com uma arcadaria neo-românica, no andar nobre destaca-se o bonito encordoado manuelino de lançarias a bordar as aberturas”.

Coroa o pórtico um pseudo-frontão, em forma de arco canopial estilizado, com o escudo da vila inscrito na parte central”. De salientar ainda na fachada e sobretudo na flecha da torre, o magnifico efeito conseguido através da influência de peças cerâmicas com a alvenaria.

No paramento exterior alternam as pequenas frestas com os grandes janelões, as janelas simples e geminadas ritmadamente com os óculos e surgem os balcões salientes. Cornijas simples e ameadas, duplicadas completam o edifício.

Interiormente, as alas onde se situam as diversas repartições desenvolvem-se em torno de um gracioso claustro, também inserido numa gramática neomedieval, neste caso a românica, mas com capitéis ecléticos, por vezes decorados com elementos que o canteiro — acredita-se que o mestre José da Fonseca — imaginou ou pediu “emprestados” à decoração de D. Manuel. E como as pedras também se pronunciam os capitéis do vestíbulo que ornamentam o primeiro andar ostentam as datas de 1908 e 1909, tal como todos os fustes do vestíbulo neo-românico, glorificam-se com égides, escudos de armas, motivos animais, encanastrados e insígnias.

Mas curiosamente — e ninguém nunca tal o descreveu — na escadaria de acesso ao claustro do 1º piso, blasonam-se com originalíssimas bordaduras com siglas interligadas e articulas dos executantes — AB (Adães Bermudes) e JSP (João da Silva Pascoal) e no varandim do claustro emolduram-se com os monogramas dos encomendantes — VH (Virgílio Horta), presidente em 1908 e do T entrelaçado a coroa (Visconde do Tojal), presidente em 1909.   

Os paços riscados por Adães Bermudes, arquitetonicamente utilizaram um ecletismo que se insere na gramática neo-manuelina.

No dia 17 de Maio de 1909 a Câmara transferiu-se para a nova morada, dado que o edifício se encontrava concluído.

O prefixo neo subentende a existência de um manuelino histórico que há séculos havia encerrado o seu ciclo. Ao ser retomado, explora um propósito evocativo ou o desejo de reactivar alguns aspectos simbólicos ou técnicos. De qualquer modo pressupõe a existência de uma consciência histórica que permite reconhecer não apenas como um estilo, mas como um período cronologicamente determinado dentro do devir histórico.